28 de Maio de 2009

Crise econômica não atinge comércio de vendas diretas

Publicado por Juliana Mendes em Economia, Cidadania | Enviar por e-mail.

Sistema composto por empresas consagradas no mercado nacional, como Avon e Natura, atravessa a crise econômica mundial intacto.

Juliana Mendes

Um sistema iniciado no final do século XVIII pela Enciclopédia Britânica, que levava caixeiros viajantes de porta a porta oferecendo conhecimento às famílias, chegou ao Brasil em meados dos anos 1950, se expandiu e hoje recebe o nome de comércio de vendas diretas. Livros, produtos de limpeza, cosméticos e até automóveis são vendidos através desse sistema de comercialização, que consiste no contato direto entre vendedores e compradores fora de um estabelecimento fixo. Apesar do momento de instabilidade econômica, o setor teve um aumento de 12% no faturamento bruto no último trimestre de 2008, com 444 milhões de itens vendidos e dois milhões de revendedores ativos no país, segundo informações da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD).

Ao contrário do comércio comum, que apesar de fechar o ano com um crescimento de 9,1%, passou por momentos de retração como no último trimestre em que sofreu queda de 2,3% em relação ao anterior, o comércio porta a porta teve crescimento nominal de 14,1% e movimento de R$ 18,5 bilhões, mantendo o crescimento dos últimos anos. Segundo a ABEVD, o aumento de revendedores e da média, em 6,4%, de produtos vendidos por cada um pode ter contribuído para o sucesso do setor no estopim da crise. Segundo o presidente da associação, Lírio Cipriani, um dos motivos que pode estar levando o PAP a passar intacto pela crise é o fato de dependerem de “pessoas autônomas que repassam os produtos para amigos e parentes na base do relacionamento”, e não dependerem de crédito. “As vendas diretas não apresentam sinais de impacto diante da crise financeira mundial, talvez pelo fato de não operarmos com base no crédito”, diz.

Hoje, são cerca de 300 empresas atuando no setor também conhecido como Venda Porta a Porta (PAP). Liderando o ranking dos produtos mais comercializados estão os cosméticos. A empresa mais conhecida no mercado é a Avon, que atua no Brasil desde 1959 e possui faturamento de cerca de R$ 1 bilhão por ano. Outras, como a Natura, já deixaram suas marcas no mercado nacional. O grupo Silvio Santos também entrou no ramo com a criação da Jequiti Cosméticos em 2006, e vem se consolidando no país com mais de 240 produtos a venda.

Outro produto muito comercializado através do PAP é o livro. Em 2007, o setor era o terceiro canal mais importante de venda de livros com um crescimento de 9,7% em relação a 2006, perdendo apenas para as livrarias e distribuidoras. Apesar de não terem números recentes, o presidente da Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Luis Antonio Torelli, compartilha da mesma opinião de Cipriani em relação aos motivos do crescimento em 2008. “Não podemos ignorar uma crise com estas características e tamanho. Estamos atentos, mas não sentimos maiores preocupações, muito provavelmente porque o setor é autofinanciável. Além disso, e aí está a nossa maior vantagem, contamos com uma legião de vendedores de livros que atravessam este país buscando o leitor/consumidor, onde quer que ele esteja, ao contrário de outros segmentos que precisam aguardar a visita do cliente”, comemora.

Em 2006, o Brasil ocupava o quinto lugar no ranking mundial de vendas diretas com um faturamento de US$ 6,9 bilhões. Segundo levantamento da Federação Mundial das Associações de Vendas Diretas (WFDSA, sigla em inglês) realizado em 2007, o Brasil subiu para a terceira posição com faturamento de US$ 9,1 bilhões, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e Japão, que faturaram US$ 30,8 e US$ 20,3 bilhões respectivamente.

O sistema é benéfico para as empresas que podem levar seus produtos a todos os cantos do país e para os revendedores, que se tornam trabalhadores autônomos, como uma forma de fugir do emprego tradicional que não tem flexibilidade de horários, além dos consumidores que terão comodidade nas compras. Com o aumento dos índices de desemprego, anunciados mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o PAP é também uma opção para amenizar os efeitos nocivos para a população.

O sistema ajuda também na complementação de renda de muitos brasileiros, como é o caso de Maria Aucilene Paizinho de Lima, que há três anos é revendedora Avon. Recebe 30% da Avon e 20% da Shopping Mais, que pertence à mesma empresa e vende de roupas a utensílios de cozinha. A porcentagem de 50% ajuda a complementar o salário de cerca de R$ 950 que ganha no seu emprego de recepcionista. O lucro, segundo ela, varia. Tem mês que lucra em torno de R$ 80, mas já chegou a ganhar R$ 480. “Estou sempre com dinheiro na carteira. Sei que é da Avon, mas na hora da necessidade eu uso e depois reponho. Já me ajudou muito, já me tirou do sufoco. Tem mês que pago minhas contas de água e luz com dinheiro que ganho da Avon”, diz. Seus cerca de 20 clientes fixos são todos do ambiente de trabalho. Segundo ela, as pessoas já conhecem a qualidade dos produtos, que são baratos, o que facilita as vendas. Vilma Gonçalves de Menezes é cliente de Aucilene desde que ela começou no ramo, e confirma o que diz a vendedora. “Sempre vem produtos de boa qualidade, mas sempre sei o que vou pedir, são produtos que uso frequentemente”, declara.

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